3 de nov de 2010

Vitória republicana ameaça reforma da saúde do governo Obama

EDUARDO GRAÇA
Direto de Nova York

Como as pesquisas de opinião já indicavam, o presidente Barack Obama e o Partido Democrata sofreram uma derrota gigantesca nas eleições de meio-termo, que renovaram o Congresso americano e boa parte dos governos estaduais. Dois anos depois da histórica vitória que levou o primeiro presidente negro à Casa Branca, os democratas perderam o terceiro posto mais importante da República, equivalente ao de presidente da Câmara dos Deputados no Brasil, que vai para o líder da oposição, John Boehner, que chorou no discurso de vitória, pouco antes da meia-noite, anunciando que "acabou a era do Estado gastador nos EUA". Com a derrota, alguns dos maiores projetos de Obama, como a reforma da saúde, podem ficar seriamente comprometidos, segundo analistas.

"Há uma clara guinada para a direita. Preparem-se para um período de tempestade política, e não apenas nos EUA, especialmente se os novos eleitos à direita de fato decidirem rever temas como a dívida externa e a reforma do sistema de saúde. Os republicanos agora terão o poder de matar aos poucos a reforma da saúde, a menina dos olhos de Obama, simplesmente vetando a liberação de fundos com a maioria que ganharam na Câmara Baixa", alertou o editor americano do britânico The Independent, um dos mais respeitados analistas políticos do país, David Usborne.

Apesar do clima nebuloso para os democratas, analistas lembram que ainda há tempo para uma recuperação do presidente. Ronald Reagan perdeu as eleições de meio-termo em 1982 e se reelegeu dois anos depois, assim como Bill Clinton em 1994. Por outro lado, Jimmy Carter saiu derrotado tanto em 1978 quanto em 80, e George Bush pai também não se recuperou da derrota de 1990, sendo derrotado por Clinton em 92. Curiosamente, George W. Bush foi o último presidente, desde 1976, a vencer tanto as eleições de meio-termo quanto a reeleição presidencial, governando com maioria no Congresso até a retomada democrata em 2006.

Senado
No Senado, a administração Obama terá de enfrentar opositores da direita radical, como Rand Paul, um dos líderes do chamado Tea Party, que, ao vencer as eleições no Kentucky, avisou: "Nós vamos tomar o governo de volta. Nós estamos escravizados pela dívida externa e vamos provar que não é o Estado que deve ser provedor, mas nós, os cidadãos". A Câmara Alta seguirá sob direção governista, mas os republicanos venceram duas das mais acirradas disputas, na Pensilvânia e no Illinois. Esta última tem um peso simbólico imenso, pois trata-se da antiga cadeira do presidente Obama.

Comentaristas já argumentam que a eleição de Paul pode significar um problema gigantesco para o governo Obama, já que ele teria o poder de bloquear a aprovação de emendas relacionadas ao aumento do déficit público dos EUA, uma de suas bandeiras. Outro membro destacado da direita republicana, Marco Rubio, venceu as eleições da Flórida, e avisou, desafiador, na festa de celebração: "Os resultados de hoje não são um apoio ao Partido Republicano, mas uma segunda chance nos dada para, de fato, cumprirmos nossa missão, nossos princípios ideológicos. Vou bater de frente com a agenda de Washington, o país está rumando para a direção errada e vamos mudar isso". A senadora democrata Claire McCaskill, do Missouri, uma das mais próximas do presidente Obama, disse, em tom sombrio, que ¿com o novo perfil dos republicanos no Senado, menos moderados, vai ser complicado trabalhar em conjunto para aprovar medidas nos próximos dois anos¿.

Os resultados finais só deverão ser conhecidos nesta quarta-feira, quando os votos do oeste do país, além de Alaska e Havaí, forem conhecidos. Mas já na noite de terça-feira, as redes NBC e CNN projetavam uma vitória esmagadora dos Republicanos na Casa dos Representantes, com uma vantagem de quase 40 cadeiras. O apresentador Chris Matthews, da MSNBC, lembrou que o resultado não pode ser considerado uma grande surpresa: "Não podemos esquecer que 47% dos eleitores votaram em John McCain em 2008. Estes americanos estão todos votando hoje, repetindo o seu voto. A novidade é o número de independentes que resolveram mandar um recado a Obama e se juntou à oposição".

Estaduais
Na disputa pelos governos estaduais, os republicanos venceram em Estados fundamentais no tabuleiro político da sucessão presidencial em 2012, como Pensilvânia, Michigan, Wisconsin e Novo México, todos antes em poder democrata, e seguiam à frente em Ohio, Ioha e Flórida nas últimas horas da terça-feira. Como não há Justiça Eleitoral nos EUA, são os governadores e seus secretários de Estado as maiores autoridades eleitorais, dando uma vantagem extra aos partidos no governo. O peso é ainda maior este ano por conta da possibilidade, oferecida a cada dez anos, de se redesenhar o mapa dos distritos eleitorais, que decidem o quão competitiva as disputas para o legislativo estadual e federal serão.

Jovens e negros
A Associated Press (AP) fez pesquisas de boca de urna que revelam um quadro, no mínimo, complicado para a reeleição de Obama. Onze mil eleitores participaram da enquete e 40% disseram estar pior financeiramente do que durante o governo de George W. Bush. A CBS fez o mesmo e divulgou que 54% dos eleitores desaprovam a administração Obama. A CNN anunciou que os eleitores negros diminuíram sua participação em 10% em relação ao pleito de 2008 (o voto, nos EUA, não é obrigatório) e, mais grave, o voto jovem caiu pela metade. Negros e jovens votaram em peso em Obama na mais recente eleição presidencial.

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